Estudantes de Agronomia da UFSM/FW conhecem realidade do agronegócio no Cerrado brasileiro
Visita técnica proporcionou contato com grandes sistemas produtivos, conhecimentos sobre agricultura irrigada, produtos biológicos e oportunidades profissionais
Publicado em 02/07/2026 às 13:16
Atualizado em 02/07/2026 às 13:24
Capa Estudantes de Agronomia da UFSM/FW conhecem realidade do agronegócio no Cerrado brasileiro

Foto de Gracieli Fernandes | UFSM/FW

Alunos do Curso de Agronomia do Campus da Universidade Federal de Santa Maria em Frederico Westphalen (UFSM/FW) realizaram a 15ª Visita Técnica ao Cerrado Brasileiro, de 20 a 26 de junho de 2026. Atividade complementar da disciplina de Agricultura Especial I, a viagem possibilitou compreender diferenças entre os sistemas agrícolas do Cerrado e da região Sul do país, conhecer sistemas produtivos em larga escala e aproximar os estudantes do mercado de trabalho.

Durante as atividades, os acadêmicos visitaram fazendas nos estados de Goiás (GO), Minas Gerais (MG) e Distrito Federal (DF). A programação incluiu visitas voltadas à produção de diferentes culturas. Além disso, a experiência possibilitou discussões relacionadas à produção de alimentos, manejo sustentável, uso de produtos biológicos, irrigação, agricultura digital e adaptação às mudanças climáticas, temas cada vez mais presentes no setor agrícola brasileiro.

Conhecimento na prática

A iniciativa ocorreu sob a coordenação do professor Claudir José Basso, docente do departamento de Ciências Agronômicas e Ambientais (DCAA) da UFSM/FW, e da disciplina.  Também acompanharam a viagem os professores do departamento, Braulio Otomar Caron e Fernando Panno.

Para Basso, essa experiência revela aos acadêmicos possibilidades que vão além do cenário agrícola regional. “Trazer os alunos para essa realidade é importante porque o Cerrado ainda é uma região que vai crescer muito na produção de alimentos, na produção de energia”. Segundo pontua, “a ideia é apresentar um contexto totalmente diferente daquele que estamos acostumados a ver no Sul e também possibilitar aos estudantes oportunidades profissionais e de estágio”. 

O docente enfatiza que a atividade contribui para aproximar os conteúdos trabalhados em sala de aula da prática no campo. “O algodão, por exemplo, é uma cultura que os alunos estudam dentro da graduação, mas muitos nunca tiveram contato direto com uma lavoura. Aqui eles conseguem visualizar isso, conversar com profissionais da área e entender melhor os sistemas de produção”, explica.

Diferenças climáticas e desafios de produção

Na Fazenda Barro Branco, em Buritis (MG), os estudantes conheceram as plantações de sorgo e canola, que são destinadas para a produção de sementes. Diferentemente do Sul, onde as chuvas são mais distribuídas ao longo do ano, a região do Cerrado possui períodos bem definidos entre seca e chuva: um verão quente e chuvoso (outubro a abril) e um inverno seco (maio a setembro). A influência do clima foi observada durante as visitas, onde os alunos entenderam sua  interferência direta no planejamento das lavouras.

Vinícius Machado da Silva, Gerente Geral Agrícola da propriedade e egresso da UFSM/FW, explicou que o manejo agrícola da região depende muito do calendário climático. “A principal diferença é o regime de chuvas. Isso exige planejamento das culturas, manejo de cobertura do solo e definição correta das épocas de plantio”. Silva comentou ainda sobre outro fator importante: a maior pressão de pragas e doenças, visto que o frio não atua da mesma forma que no Sul na quebra dos ciclos biológicos.

O proprietário da Barro Branco, Oscar Stroschon, também egresso da UFSM, iniciou as atividades no Cerrado em 1989 e atualmente soma áreas em Minas Gerais, Goiás e Bahia, atuando na produção de sementes e diferentes culturas agrícolas. O cultivo experimental de canola, por exemplo, iniciou em 2024 nas fazendas, com rápida ampliação da área destinada à oleaginosa, atualmente com cerca de 250 hectares. 

Sustentabilidade e manejo biológico

Na Agrícola Wehrmann, em Cristalina (GO), a turma conheceu sistemas de produção de hortaliças em larga escala, com destaque para batata e cebola, entre outras produzidas no local. Os estudantes acompanharam de perto os desafios relacionados à essas produções, com foco no manejo de plantas daninhas e na necessidade de rotação de culturas para manutenção da sanidade das áreas. 

A empresa mantém uma biofábrica para multiplicação de microrganismos utilizados no manejo agrícola. Atualmente, 90% dos produtos utilizados em grande parte das áreas de produção são biológicos. De acordo com a coordenadora de Aprendizagem e Projetos Sociais da empresa, Andréia Lago, a adoção dos bioinsumos cresceu nos últimos anos a partir dos resultados observados no campo. “Hoje os produtos biológicos fazem parte da rotina da empresa. Além da questão da sustentabilidade, também existe retorno em qualidade e redução de custos”, comenta. 

Durante a visita, Andréia também esclareceu sobre o controle de qualidade realizado desde a produção até o processamento dos alimentos, além das ações relacionadas à compostagem e redução de resíduos. Os alunos puderam conhecer a estrutura de beneficiamento e classificação de batatas, além dos sistemas de armazenamento e produção de sementes. 

Tecnologia na produção de tomate

Igualmente, práticas de manejo biológico foram observadas nas áreas de produção irrigada de tomate na Fazenda Onça (GO). A Fazenda é de propriedade dos sócios Carlos Alberto Moresco e Genes Ceppo os quais atuam em áreas arrendadas no Cerrado. Conforme Moresco, o tomate é uma cultura altamente dependente de tecnologia, inovação e manejo técnico, exigindo atenção constante em relação à irrigação, sanidade e condições climáticas. Durante a visita, os acadêmicos conheceram estratégias de manejo biológico no solo e nas aplicações foliares, além de práticas de rotação de culturas utilizadas para reduzir problemas fitossanitários e melhorar a produtividade.

Qualidade para exportação

Na Fazenda Yanoama, no Distrito Federal, os estudantes conheceram o sistema de produção de café irrigado, voltado principalmente para exportação. A propriedade utiliza manejo biológico em diferentes culturas e vem reduzindo gradativamente o uso de produtos químicos. Além disso, utiliza resíduos orgânicos da própria produção na adubação das lavouras.

Para o administrador da fazenda, Roberto Nardi, os investimentos em manejo preventivo e equilíbrio do solo têm sido fundamentais para manter a produtividade e a qualidade da cultura.

– Hoje trabalhamos bastante com aplicações biológicas e manejo de solo, buscando melhor enraizamento e equilíbrio da lavoura. No café, conseguimos reduzir significativamente o uso de químicos nos últimos anos –, explica. Outro diferencial que Nardi apresentou aos estudantes foi o manejo da irrigação para uniformizar a florada do café e melhorar a qualidade dos grãos produzidos.

Tecnologia e Inovação

A cadeia produtiva do algodão foi apresentada na Fazenda Pamplona, da SLC Agrícola, localizada em Cristalina (GO). Os acadêmicos também participaram de uma conversa sobre agricultura digital, telemetria e manejo regenerativo do solo, sistemas que vêm transformando os sistemas produtivos e ampliando a eficiência do agronegócio do Cerrado. Na ocasião, foram apresentados recursos de agricultura de precisão, monitoramento das áreas por imagens de satélite, aplicação localizada de defensivos e uso de bioinsumos produzidos em biofábricas próprias.

Para o Coordenador de Produção Agrícola local, Lucas Cesar Martins, as mudanças climáticas vêm exigindo adaptações constantes nos sistemas produtivos. Por isso, a empresa adota o uso de plantas de cobertura e estratégias voltadas à conservação do solo e ao aumento da sustentabilidade dos sistemas produtivos. “Hoje existe uma preocupação muito grande com retenção de água no solo, aumento de matéria orgânica e diversificação de culturas. São práticas que ajudam a tornar os sistemas mais resilientes”, destaca.

Oportunidades profissionais

Ao todo, 526 estudantes já participaram das visitas técnicas, que ocorrem desde 2010. Basso destaca que essa atividade prática “busca instigar os alunos a conhecer uma nova região para que, depois de formados, tomem suas decisões. É uma região que tem muito a crescer e muita oportunidade de trabalho”. “É uma chance que eu não tive dentro da minha graduação”, complementa. 

Assim, muito além do aprendizado técnico, as viagens da disciplina aproximam os estudantes de oportunidades profissionais no Centro-Oeste brasileiro. Um case de sucesso é o do engenheiro agrônomo Vinicius Machado da Silva. Ele explica que a participação em uma edição anterior da viagem foi decisiva para sua trajetória profissional. “Depois da viagem, busquei uma oportunidade de estágio no Cerrado. Vim para conhecer a região e acabei construindo minha carreira aqui dentro da empresa”, relata.

A acadêmica do Curso, Esther Taborda, que participou da visita, destaca que retorna com uma visão mais ampla sobre o agronegócio brasileiro e sobre as possibilidades de atuação profissional. “A gente consegue conhecer culturas e sistemas produtivos que não fazem parte da nossa realidade no Sul. Também temos contato com empresas, produtores e oportunidades de estágio. Isso amplia muito nossa visão como futuros profissionais”, afirma. 

Fonte: Gracieli Fernandes | UFSM/FW

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Almir Felin