"Hoje o produtor está sem segurança para plantar"
Produtores de diversas regiões protestam de forma pacífica, reivindicando o alongamento de débitos agrícolas diante da crise climática e financeira que atinge o setor
Publicado em 16/06/2025 às 14:52
Atualizado em 16/06/2025 às 15:33
Capa "Hoje o produtor está sem segurança para plantar"

Foto de Maicon Ferreira/LA+

Nesta segunda-feira, 16, produtores rurais da região do Médio Alto Uruguai realizam uma grande mobilização no trevo de acesso ao distrito de Osvaldo Cruz, em Frederico Westphalen. O ato faz parte de uma mobilização estadual por securitização das dívidas agrícolas. O movimento é pacífico e organizado, com bloqueios intermitentes para garantir a passagem de veículos de emergência e trabalhadores.

O empresário e produtor rural Roberto Rigon, que participa da mobilização, destacou a importância da ação como forma de garantir a sobrevivência da agricultura gaúcha. “Esse dia foi programado para as pessoas virem reivindicar. Não vieram aqui para fazer bagunça. Existe um planejamento, uma organização para que o movimento represente a nossa classe da forma como ela é: ordeira e trabalhadora”, afirmou.

Rigon ressaltou que o pedido central dos agricultores não é o perdão das dívidas, mas sim o alongamento dos prazos de pagamento. “Ninguém está pedindo perdão de dívida. Estamos pedindo uma condição de alongamento junto às entidades bancárias. Já passamos por isso no início dos anos 2000 com a securitização. Se hoje nossa família ainda está na agricultura, é porque naquela época tivemos esse fôlego para continuar produzindo”, explicou.

Segundo ele, a realidade enfrentada pelos produtores é crítica após anos consecutivos de estiagem, chuvas fora de época, enchentes, altas taxas de juros e cortes em políticas de apoio como o Proagro.

– Hoje o produtor está sem segurança para plantar. Temos feijão brotando na lavoura, trigo para semear, mas sem crédito, com juros altos e sem seguro agrícola, fica cada vez mais difícil –, desabafou Rigon.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Palmeiras das Missões, Ivonei Librelotto, também esteve presente na mobilização e reforçou o caráter emergencial da pauta. “Nós não gostaríamos de estar aqui, mas a situação do campo é insustentável. O governo federal anuncia crescimento no setor primário, mas o que chega para o produtor é descaso. As dificuldades do campo impactam toda a sociedade, inclusive setores que acham que está tudo bem”, criticou.

Librelotto alertou para o risco de retração na produção de alimentos básicos, como feijão, milho e trigo. “O Rio Grande do Sul já reduziu drasticamente a área plantada de feijão e milho. O trigo, que deveria ser uma alternativa, também vai ter queda significativa. Não por falta de vontade, mas por falta de condições econômicas e climáticas”, afirmou. O líder sindical lamentou a falta de diálogo efetivo com o governo federal.

– Em dois anos de negociações com o Ministério da Agricultura, não avançamos em nada concreto. O governo divulga números grandiosos de Plano Safra, mas a verdade é que grande parte dos produtores não consegue acessar esses recursos –, disse.

As mobilizações dos agricultores gaúchos, como a realizada em Osvaldo Cruz, acontecem simultaneamente em diferentes pontos do Estado. A reivindicação central segue sendo a securitização das dívidas como condição mínima para que os produtores consigam atravessar o período de crise e continuar alimentando o Brasil.

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Almir Felin