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A imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos preocupa diretamente setores estratégicos da economia gaúcha. O alerta é do assessor de Relações Internacionais da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Renan Hein dos Santos, que analisou os impactos da medida em entrevista à Rádio Luz e Alegria.
Renan explicou que o chamado "tarifaço" inviabiliza economicamente as exportações ao mercado norte-americano. “Uma tarifa de 50% torna o comércio internacional insustentável. Isso significa menos divisas para o país, menor demanda pelos nossos produtos e possíveis demissões. Empresas gaúchas vão deixar de ganhar e de empregar”, destacou.
Embora o governo brasileiro tenha buscado uma solução diplomática, a escalada da tensão preocupa. “Nos últimos dias, o que se vê é um agravamento da situação. O diálogo diplomático parece estar cedendo lugar ao embate político”, avaliou Renan.
Segundo ele, a justificativa econômica apresentada pelos EUA na carta enviada ao governo brasileiro é incorreta.
– O Brasil tem déficit comercial com os Estados Unidos. Eles ganham mais do que perdem nessa relação. O argumento econômico é frágil. O restante da carta trata de questões puramente políticas, o que não poderia ser usado como base para sanções comerciais –, criticou.
Um dos pontos políticos citados na carta envolve o ex-presidente Jair Bolsonaro, cuja situação jurídica no Brasil é apontada como “perseguição”. Renan acredita que temas como esse não deveriam influenciar relações comerciais. “Estamos diante de uma disputa geopolítica. O Brasil tem se alinhado cada vez mais a regimes autoritários como China, Irã e Rússia, antagonistas dos EUA. Isso tem um custo.”

Setores mais afetados
O assessor da Farsul apresentou dados que mostram o peso do mercado americano para produtos gaúchos, mesmo que ele represente cerca de 5% das exportações do agronegócio estadual.
– É o terceiro maior destino das exportações gaúchas, mesmo sem comprar soja, nosso principal produto. Isso mostra a diversidade de setores impactados –, explicou.
Entre os setores mais afetados estão:
Fumo não manufaturado – 10% das exportações vão para os EUA;
Celulose – 14% têm como destino o mercado americano;
Calçados de couro – 47% das exportações são direcionadas aos EUA;
Madeira serrada – 60%;
Móveis de madeira – 16%;
Couros e peles bovinas – 16%;
Carne bovina in natura – 16%;
Carne bovina industrializada – 14%;
Sebo bovino – 94%;
Produtos da apicultura – 50%.
“Setores como o calçadista e o de apicultura envolvem milhares de pequenas e médias empresas, além de famílias que têm nessas atividades sua principal fonte de renda”, apontou.
Diálogo e pragmatismo
Renan defende que o único caminho possível para evitar um prejuízo à economia brasileira é o diplomático. “A economia dos EUA é doze vezes maior que a nossa. Não temos condições de bater de frente. Não é covardia, é pragmatismo. Retaliações só agravariam o cenário”, afirmou.
Segundo ele, a estratégia mais inteligente é o diálogo entre governos e também entre empresários dos dois países. “O setor privado americano precisa entender que o consumidor local será diretamente afetado. O café, o suco de laranja, a carne, tudo vai encarecer. Isso pode gerar inflação e um custo político alto para quem propõe essas tarifas”, avaliou.
O assessor lembrou que o Brasil também tem provocado os EUA ao liderar debates nos BRICS sobre a substituição do dólar como moeda de referência no comércio global. “Esse é um dos pilares do poder americano. Estamos atacando diretamente isso”, observou.
Farsul mantém diálogo institucional
A Farsul, conforme Renan, tem atuado por meio da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) em diálogo com o governo federal.
– Há um esforço do vice-presidente Alckmin em reunir os setores produtivos. Precisamos de calma e paciência. A resposta precisa ser técnica e diplomática –, reforçou.
Ele concluiu com um alerta: “Estamos diante de um cenário novo, que lembra os tempos da Guerra Fria, com blocos antagônicos e disputas de influência global. É preciso sabedoria para não transformar uma crise política em desastre econômico”.
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