O presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando), Marcos Tang, fez um alerta contundente sobre a grave crise que atinge o setor leiteiro gaúcho e nacional. Em entrevista à rádio Luz e Alegria na manhã desta sexta-feira, 24, Tang — que também é médico e produtor rural — descreveu um cenário de endividamento, desvalorização e desânimo entre os produtores, e cobrou medidas urgentes do governo federal para conter as importações desenfreadas de leite e derivados, especialmente vindas da Argentina e do Uruguai.
– O produtor de leite brasileiro está à beira de um colapso. O litro de leite está sendo pago entre R$ 1,60 e R$ 2,00, enquanto o custo de produção gira em torno de R$ 2,20 a R$ 2,30. É impossível manter uma atividade que paga menos do que custa produzir –, denunciou Tang. “Esse produtor faz milagre, trabalha 365 dias por ano e, mesmo assim, está sendo punido por uma política de importação injusta e desleal.”
Tang destacou que a crise atual é resultado de cinco anos consecutivos de condições climáticas adversas, combinadas com aumento de custos de insumos e ausência de políticas públicas consistentes. Ele explicou que o leite não é uma produção que possa ser interrompida e retomada a qualquer momento, o que torna a atividade ainda mais vulnerável.
– Uma terneira que nasce hoje só começa a dar retorno em dois anos. Se o produtor abandona o leite, dificilmente retorna. Isso é investimento de longo prazo, e estamos perdendo gente boa, que sempre produziu com qualidade –, enfatizou.
O presidente da Gadolando também criticou a falta de sensibilidade política diante do problema. “O Brasil é agrodependente, e parece que o governo está virando as costas para o agro. Precisamos de políticos que vistam a camiseta do campo, que entendam que defender o produtor de leite é defender a soberania nacional. O dia em que houver crise lá fora, quem vai garantir o abastecimento interno se o nosso produtor quebrar?”, questionou.
Sobre soluções imediatas, Tang defende três medidas urgentes. A primeira, frear as importações com a aplicação de tarifas e regras mais rígidas.
– A Argentina e o Uruguai não compram o nosso açúcar porque isso destruiria o mercado deles. Então por que nós precisamos comprar o leite deles? Esse Mercosul, para o produtor de leite, é um ‘Merco-vem’, só vem leite para cá –, ironizou.
A segunda ação, segundo ele, seria a intervenção governamental na compra de leite, como forma de equilibrar oferta e demanda. “O governo precisa agir como faz com o arroz, comprando leite para desentupir o mercado e dar fôlego ao produtor.”
E, por fim, Tang defende uma campanha nacional de valorização do consumo de leite e derivados, com apoio das entidades do setor e do próprio governo. “O brasileiro consome em média 150 a 160 litros de leite por pessoa ao ano. A Organização Mundial da Saúde recomenda 200 litros. Há espaço para crescer, mas é preciso combater os falsos discursos contra o leite e mostrar seus benefícios.”

Com longa trajetória na defesa da pecuária leiteira, Tang preside também a Comissão de Leite e Derivados da Farsul e o Conselho Técnico Operacional da Pecuária Leiteira do Fundesa-RS. Ele reforçou que o problema é estrutural, mas exige decisões políticas imediatas. “Não queremos subsídio, queremos condições justas para competir. Enquanto o governo faz anúncios de planos e programas que não chegam à ponta, o produtor está se endividando e saindo da atividade. Sem o produtor de leite, o Brasil perde mais do que economia — perde soberania alimentar”, concluiu.
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