Foto de Marcelo Camargo/Agência Brasil
A atividade de motoristas e entregadores por aplicativo no Brasil é marcada por uma rotina de exploração em longas jornadas de trabalho, distanciando-se do conceito de "empreendedorismo" comumente associado à categoria. Esta é a principal análise do cientista político e professor Leonardo Sakamoto em seu livro "O que os coaches não te contam sobre o futuro do trabalho" (Editora Alameda), escrito em parceria com o jornalista Carlos Juliano Barros.
Sakamoto avalia que esses trabalhadores foram "enganados", caindo no "conto do vigário de que são empreendedores", conforme afirmou em entrevista à Agência Brasil. A obra, que traz reflexões atualizadas sobre exploração e precarização, foi lançada recentemente em São Paulo e Brasília, e apresentada nesta terça-feira (25) na Universidade federal de Minas gerais (UFMG).
Ganhos desproporcionais e ataque aos direitos
O pesquisador argumenta que o principal problema reside na desproporcionalidade dos ganhos, com as plataformas retendo a maior parte dos recursos e pagando valores abaixo das reivindicações dos trabalhadores. Além da falta de direitos trabalhistas, como aposentadoria e segurança em caso de infortúnio, Sakamoto aponta para um fenômeno de culpabilização da Consolidação das leis do trabalho (CLT) pela precarização.
“A culpa do salário baixo, na verdade, é do patrão. A culpa de trabalhar muito, na escala de seis para um, é do Congresso nacional”, opina o autor.
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O jornalista, cientista político e professor Leonardo Sakamoto, fala sobre precarização de trabalhadores - Foto Paulo Pinto/Agência Brasil
Sakamoto identifica um ataque sistemático aos direitos trabalhistas, onde "influenciadores e políticos culparam a CLT" pelos problemas, desviando o foco das regras que protegem o trabalhador.
Precarização além dos aplicativos
A obra estende a crítica à precarização para outras categorias. O pesquisador alerta para danos causados pela inteligência artificial e por práticas como a contratação de pessoas físicas como pessoas jurídicas (as "pejotas") e as relações de freelancer fixo, que impõem deveres de contratado sem oferecer nenhum direito.
Sakamoto lamenta que, em um momento de grandes avanços tecnológicos, o país ainda não tenha sido capaz de erradicar formas arcaicas de superexploração do trabalho, incluindo o trabalho escravizado e o uso de crianças em espaços laborais.
Tecnologia como ferramenta de mobilização
Apesar do cenário de exploração, o autor defende a necessidade de reivindicações e mobilizações dos trabalhadores. Ele ressalta que a tecnologia, embora possa precarizar, também pode ser uma ferramenta poderosa para mobilizar o pessoal.
No caso dos motoristas e entregadores de aplicativo, a luta atual se concentra na garantia de um preço mínimo da corrida e de condições de trabalho negociadas com as categorias, muitas das quais utilizam as redes sociais para se organizar, após o abalo sofrido pelos sindicatos com a reforma trabalhista de 2017.
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