40 famílias de vítimas da Kiss pretendem processar Netflix por série sobre a tragédia
Série foi lançada na quarta-feira, 25
Publicado em 29/01/2023 às 20:29
Atualizado em 29/01/2023 às 20:38
Capa 40 famílias de vítimas da Kiss pretendem processar Netflix por série sobre a tragédia

Foto de Reprodução/Netflix

Após o lançamento da série Todo Dia a Mesma Noite, beaseada no livro-reportagem homônimo escrito pela jornalista Daniela Arbex, um grupo de 40 famílias de vítimas e sobreviventes da tragédia da boate Kiss pretende processar a Netflix pela produção.

A advogada do grupo, Juliane Muller Korb, afirmou que as famílias se queixam da exploração comercial da tragédia pela plataforma de streaming, “que sequer teve a sensibilidade de informá-los que uma série dramática seria produzida”. As informações foram divulgadas pela CNN.

– O pedido para a Netflix é de algumas adequações de exposição, especialmente do trailer, e que a série não seja só explorada comercialmente. Precisamos tratar da responsabilidade social sobre a dor desses pais. A que custo uma plataforma de streaming pode lucrar em cima de uma tragédia como essa? – explicou a advogada à CNN.

A série Todo Dia a Mesma Noite foi lançada pelo canal de streaming na última quarta-feira (25), dois dias antes da data em que a tragédia completou 10 anos. Desde o anúncio do lançamento de uma obra dramatizada sobre o ocorrido, muitas críticas começaram a surgir nas redes sociais, apontando até mesmo que não havia necessidade de “desenterrar um assunto que deveria ser esquecido”. Entretanto, desde o início da divulgação, a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de SM (AVTSM) se manifestou a favor da realização da série.

Neste domingo (29), após a notícia de que familiares processariam a Netflix, a AVTSM publicou uma nota negando relação com o processo e reiterando o apoio a este tipo de produções.

Confira abaixo a íntegra
Perante a divulgação em inúmeros veículos da imprensa acerca de um processo contra empresa Netflix em função da série “Todo o dia a mesma noite”, a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da tragédia de Santa Maria esclarece através dessa nota que estávamos sim cientes que a produção estava sendo realizada com base nos personagens do livro “Todo dia a mesma noite: a história não contada da Boate Kiss” de Daniela Arbex, e sente-se representada por ela bem como pelo livro da autora.
A produção não retrata de forma individual os 242 jovens assassinados, mas sim um recorte das quatro famílias de pais que foram processados. Todos familiares de vítimas e sobreviventes retratados por personagens da obra estavam cientes e em concordância. Além disso, reiteramos que não estamos movendo nenhum processo contra as produções, nem pretendemos, por acreditarmos na potência das produções na luta por justiça e a luta por memória.
Acreditamos, acima de tudo, que tragédias como a que vivenciamos precisam ser contadas através de todas as formas. Recontar essa história significa denunciar as inúmeras negligencias e tentativas de silenciamento que encontramos pelo caminho, além de auxiliar na prevenção para que esse tipo de tragédia não aconteça com mais nenhuma família, algo que temos como propósito desde o 1° dia de nossa fundação.
Mostrar o que aconteceu na Kiss faz com que a morte de nossos filhos e filhas, irmãos e irmãs, pais e mães, amigos e amigas não tenha sido em vão. Mostrar a morosidade, a burocracia e como é sistema judiciário brasileiro
serve como denúncia e como protesto. É preciso falar, debater, produzir materiais sobre o que aconteceu naquela trágica noite de 27 de janeiro de 2013, pois só assim conseguiremos que as pessoas entendam o que a ganância, a negligência e a omissão são capazes de fazer. Em Santa Maria, esses fatores mataram 242 jovens e deixaram 636 com marcas físicas e psicológicas.
Entendemos que rever a tragédia, principalmente nos dois primeiros episódios pode mobilizar os sentimentos, as lembranças e dimensionar a impunidade em sua ferocidade, e, com isso, a associação se disponibiliza a acolher e a promover ações pra comporem o movimento por justiça.
Por fim, esclarecemos que desde o dia 27 de janeiro de 2013, nós sofremos com a perda irremediável de nossos filhos, irmãos e amigos, sabemos o quanto isso nos dói. Não há nenhum valor sendo pago a nós com a produção, e o que ganhamos é a crença no fortalecimento na luta por justiça e pela memória. Para que não se repita.

SANTA MARIA. 29 DE JANEIRO DE 2023
Gabriel Ravadoschi Barros – presidente da AVTSM

 

Fonte: Diário de Santa Maria

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Diego Macagnan