Redução dos preços dos alimentos é pouco provável, diz economista da FGV
André Braz analisa os efeitos da isenção de tarifas de importação e os desafios para a redução do preço dos alimentos no Brasil
Publicado em 17/03/2025 às 17:00
Capa Redução dos preços dos alimentos é pouco provável, diz economista da FGV

Nos últimos anos, os preços dos alimentos no Brasil têm sido uma preocupação constante para as famílias, com aumentos significativos que impactam o orçamento doméstico. Recentemente, o governo federal anunciou a isenção de tarifas de importação para uma série de produtos alimentícios, uma medida que visa aliviar a pressão sobre os preços internos. Para entender os efeitos dessa decisão e o cenário atual dos preços dos alimentos, conversamos com o economista André Braz, coordenador dos Índices de Preços e especialista em Política Monetária e Inflação do FGV/IBRE.

André Braz destaca que, desde 2020, o Brasil tem enfrentado uma série de fatores que pressionaram o preço dos alimentos, tornando a situação mais desafiadora para os consumidores.

– Em 2020, a pandemia afetou as cadeias de distribuição, o que resultou em uma alta significativa nos preços dos alimentos, sendo este o principal fator da inflação daquele ano. Em 2021, a crise hídrica, com chuvas insuficientes, comprometeu tanto as safras quanto a geração de energia, levando a um aumento nos preços da alimentação e da energia –, explicou o economista.

Em 2022, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia afetou o escoamento de produtos agrícolas, impactando os preços de itens essenciais como trigo e soja. Embora 2023 tenha sido um ano de boas colheitas, Braz observa que a recuperação não foi suficiente para reduzir os preços dos alimentos que acumulam altos custos desde 2020. Em 2024, o Brasil enfrentou uma "tempestade perfeita", com eventos climáticos extremos, como El Niño e La Niña, que afetaram a distribuição das chuvas e agravaram a situação.

A pressão climática e o impacto na oferta de alimentos

De acordo com Braz, a combinação de fatores climáticos, como o El Niño e o La Niña, e a desvalorização cambial, que elevou o preço das importações, tem contribuído para o aumento dos preços.

– A desvalorização da moeda brasileira em 2023, de cerca de 25%, encareceu as importações e reduziu a oferta interna, ao mesmo tempo que estimulou as exportações –, afirmou o economista. Ele também apontou que o aumento da demanda interna, com a redução do desemprego e a recuperação econômica, pressiona ainda mais os preços.

O impacto dessas variáveis é evidente nos números. Entre 2020 e 2024, os alimentos aumentaram 55%, enquanto a inflação geral foi de 33%. "Com a inflação de alimentos subindo quase o dobro da média, as famílias precisam reduzir o consumo de outros bens para garantir a alimentação, o que representa um desafio, especialmente para as mais pobres", explica Braz.

Isenção de tarifas de importação

Quando questionado sobre os efeitos da isenção das tarifas de importação para certos produtos, o economista foi cauteloso. Embora a medida tenha o potencial de diminuir os preços, ele ressalta que o impacto não será imediato.

– A isenção das tarifas pode ajudar a reduzir os preços no longo prazo, mas a desvalorização do real em relação ao dólar ainda afeta o custo de importação –, afirmou Braz. Além disso, ele destacou que muitos alimentos essenciais da cesta básica ainda estão em ascensão nos supermercados, o que indica que a medida não será capaz de corrigir rapidamente o quadro inflacionário.

Braz também enfatizou a importância de investimentos estruturais para enfrentar a questão dos preços dos alimentos no Brasil. "A solução não é imediata, e exige um esforço de médio e longo prazo. Investir no pequeno produtor rural, garantindo acesso a crédito e tecnologia, é essencial para aumentar a oferta e reduzir os custos de produção", disse. O economista também defendeu a necessidade de pesquisas para o desenvolvimento de sementes mais resistentes ao clima, além de melhorias no sistema de transporte e armazenamento de alimentos.

A agenda de investimentos precisa focar em inovações que aumentem a eficiência do setor agrícola, como o uso de sementes mais adaptadas à escassez de água, e em soluções logísticas para reduzir os custos de transporte. "O transporte ferroviário e via cabotagem, por exemplo, são alternativas mais eficientes que o rodoviário e podem contribuir para uma redução nos custos", afirmou.

O caminho para a redução dos preços

Apesar dos desafios enfrentados, André Braz acredita que há espaço para medidas que possam aliviar a pressão sobre os preços dos alimentos no futuro, mas observa que mudanças estruturais no setor agrícola e no sistema de distribuição são fundamentais.

– Não podemos esperar uma redução imediata nos preços dos alimentos, mas é possível vislumbrar um cenário mais estável com os investimentos corretos –, concluiu.

Em um cenário ainda de incertezas, a adaptação às mudanças climáticas e o fortalecimento da agricultura brasileira serão peças-chave para garantir a segurança alimentar do país e reduzir as disparidades no custo de vida, especialmente para as famílias de baixa renda.

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