Garantir renda aos agricultores é a principal luta do Movimento Sindical
Em entrevista ao LA+, presidente da Fetag-RS fala sobre os 60 anos da entidade, as principais conquistas e desafios da agricultura familiar
Publicado em 14/02/2024 às 17:00
Atualizado em 14/02/2024 às 17:02
Capa Garantir renda aos agricultores é a principal luta do Movimento Sindical

São seis décadas de lutas e conquistas para as famílias do campo gaúcho. Com 60 anos de atuação, a Fetag-RS traz em sua história uma bagagem de lutas em prol da agricultura e pecuária familiar. A Frente Agrária Gaúcha (FAG), que iniciou a mobilização de agricultores para a formação de entidades de representação no Estado, foi a propulsora para a criação da Federação. 

A entidade sindical foi criada para defender os agricultores familiares, e ao longo de sua história reuniu também em sua representação os pecuaristas familiares. Estas categorias em trabalho conjunto com os Sindicatos de Trabalhadores Rurais, a Fetag-RS e a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), levantaram bandeiras de lutas essenciais para o desenvolvimento do meio rural, a criação de políticas públicas de sustentabilidade e benefícios que garantiram a permanência das famílias no campo.

Atualmente a Fetag está localizada em Porto Alegre e tem em seu quadro social 315 Sindicatos dos Trabalhadores Rurais filiados, e chega a cerca de 450 municípios de abrangência com atuação do Movimento Sindical, estes divididos em 23 Regionais Sindicais, sendo aproximadamente 200 mil associados(as).



A Federação conquistou o reconhecimento da sociedade estadual e nacional frente às batalhas que travou para defender a categoria. Foram muitas as bandeiras de luta conquistadas, entre elas a garantia de acesso aos benefícios previdenciários (aposentadoria, auxílio-doença, auxílio-maternidade, entre outros); a criação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNCF), além de garantir crédito para a juventude rural, projetos de habitação rural, por meio da Cooperativa Habitacional da Agricultura Familiar (COOHAF), alterações na legislação ambiental, entre outros.

Em entrevista, o presidente da Fetag, Carlos Joel da Silva fala sobre a importância do movimento sindical para os produtores gaúchos e os desafios que devem ser enfrentados para o fortalecimento da agricultura familiar. Confira:

Nesses 60 anos de atuação em prol dos trabalhadores rurais, quais as principais ações e conquistas da Fetag?
Nesses 60 anos da atuação da FETAG, dos Sindicatos de Trabalhadores Rurais, eles foram marcados sim por muitas lutas, mas por muitas conquistas. Quando começou o movimento sindical, ele começou já porque o agricultor familiar não tinha direito nenhum. Não tinha direito à saúde, não tinha direito a financiamento agrícola, não tinha direito à aposentadoria. E, ao longo desses 60 anos, nós conquistamos isso tudo através de muita luta, de muita mobilização, muito trabalho do nosso movimento sindical. 
O SUS, para quem não sabe, nasceu em um caminhão de som na frente do Piratini e da Assembleia Legislativa, numa mobilização da FETAG. para o financiamento agrícola, nós criamos o Pronaf, criamos o Agro, criamos o Pronamp, tudo isso para ajudar o agricultor, PAA, PNAE, tudo isso veio para modernizar o agricultor, assim como a previdência social. No início conseguimos só meio salário para os homens acima de 70 anos, naquela época. E depois nós conseguimos aí em 1988 a construção do salário mínimo para todos, aposentadoria também para as mulheres, auxílio maternidade, a acidentes de trabalho, tudo isso veio nesta conquista. 
E os programas de renda, a assistência técnica também veio dentro desse projeto. Mas mais do que isso, a luta de todas as políticas que veio em garantia ao nosso agricultor. E o nosso agricultor se modernizou e se modernizou muito dentro da propriedade. Antes se produzia para consumo próprio, hoje nós consumimos para o consumo interno do nosso estado, do nosso país e já exportamos a nossa produção também para fora do país.

Quantos associados têm hoje a Federação e quais as vantagens de ser associado à Fetag?
Hoje temos 315 sindicatos, que estão distribuídos em 23 regionais. Temos em torno de mais de 180 mil agricultores e agricultoras associados aos nossos sindicatos, que são associados à Fetag também, e que vão lá no sindicato espontaneamente pagar a sua mensalidade para o Sindicato, porque acreditam na luta do movimento sindical, no trabalho, em tudo aquilo que o Sindicato oferece de serviço, mas acima de tudo também por acreditar que é junto que a gente faz as coisas acontecerem, que é através da união que a gente faz acontecer.
E a vantagem de ser associado ao sindicato é que ele está fortalecendo a sua classe, está fortalecendo uma entidade que briga por ele, que luta por ele, e acima de tudo, todo o trabalho que o sindicato faz no dia a dia. E de dois anos para cá, nós temos também implementado o cartão Fetag+, que é um cartão de associados dos sindicatos da Fetag. Ele tem direito a ter desconto em diversos pontos de atendimento, em mercado, em posto, em farmácia, em agropecuária, em oficinas, em hotéis, em restaurantes, tudo isso através do Fetag+. Quem é associado pode ir no Sindicato e pedir o seu cartão.

Quais os principais desafios e transformações que a agricultura familiar deve passar?
O Movimento Sindical, a Agricultura Familiar e a Pecuária Familiar têm dois grandes desafios. O primeiro é garantir renda para os agricultores. Nós precisamos garantir renda. Esse é uma das principais lutas do Movimento Sindical. Não dá para trabalhar do jeito que nós estamos trabalhando, em que pagamos todo o preço. O Mercosul vem aí e coloca produtos mais baratos de lá para cá, com produtores que ganham incentivos lá, que ganham subsídios, e nós não temos aqui. Então nós precisamos ter políticas que nos garantam renda, e é isso que nós vamos trabalhar para que a gente, garantindo a renda, nós vamos automaticamente estar garantindo o segundo principal problema da agricultura familiar, que é a permanência dos jovens no meio rural. Precisamos ter renda, precisamos que o jovem continue para garantir o futuro da produção de alimentos no Estado e no Brasil e para alimentar também o mundo.

Qual a mensagem que pode ser transmitida aos agricultores, que tem passado por tantas dificuldades nos últimos anos, em virtude do clima e baixos preços?
No momento em que nós viemos de três estiagens, e também já tivemos enchente, ciclone e agora estamos outra vez chegando em algumas regiões com o quarto ano com problemas climáticos, a gente quer dizer que acredite no seu trabalho, naquilo que você faz, porque é muito importante o seu trabalho, da sua família. Sua produção de alimentos é o que muda o Brasil, é o que mexe com a economia do município, do Estado, do país. 
Vocês estão produzindo alimentos, e não tem coisa mais sagrada que o alimento. Sem alimento não teria nenhuma das outras profissões que nós temos hoje. Então por isso que eu digo que a profissão da agricultura é a mais importante do nosso país e do mundo, porque é através do alimento, é através do suor de você, da sua família, que o alimento chega na mesa de todo mundo. Então continue acreditando, mas acredite no Sindicato, vá ao Sindicato, se associe e participe, vá nas reuniões, na Assembleia, vá nas mobilizações quando puder, que é através dessa mobilização que a gente vai crescer.

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