O recorde de safra no inverno passado, que resultou em mais de cinco milhões de toneladas de trigo colhidas, não se repetirá este ano. A quebra esperada, devido às condições ruins do clima na reta final do ciclo, afeta não só a quantidade do cereal colhido no Estado, mas também a sua qualidade, e o preço pago ao produtor pela saca de 60 quilos.
Conforme levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab, a produção desta safra deve cair 30% em relação ao ano passado. Já a Emater projeta redução de 27,8% no trigo, com uma colheita estimada em 3,2 milhões de toneladas.
O impacto na produção está associado aos efeitos do El Niño. O fenômeno climático acentua as chuvas na região Sul, prejudicando o desenvolvimento das plantas. Além disso, impede a entrada das máquinas nas lavouras, atrasando a colheita, e empurrando o início do cultivo da próxima safra de verão.
Na região de Frederico Westphalen, a Emater/RS-Ascar estima uma redução de 36% de produtividade em relação à expectativa inicial. Nos 42 municípios que abrangem o escritório regional foram cultivados 164 mil hectares de trigo na atual safra. Nesta área, a estimativa é de que a produtividade média tenha sido de 1.836 quilos.
O grande volume de chuvas que caiu sobre a região ao longo de toda a primavera e ainda no mês de agosto, durante o período de inverno, onde já iniciava o momento da floração do trigo, prejudicaram o cultivo.
– O excesso de chuvas dificultou a aplicação de fungicidas para o manejo e o controle de Gibberella e Brusone, duas doenças que têm potencial de dano muito elevado na cultura, e que acabam levando à má formação dos grãos, além de trazerem toxinas para a massa de grãos, que também trazem problemas para o uso destes grãos. No mês de outubro, principal mês da colheita, nós observamos volumes de chuva muito elevados, o que fez com que o grão já maduro, sofresse o processo de perda de umidade e qualidade –, explicou o gerente-regional da Emater/RS de Frederico Westphalen, Luciano Schwerz.
O recorte atual da colheita do trigo, indica pouca quantidade de grãos e qualidade baixa. Por causa da umidade constante, o cereal vai perdendo padrões de excelência, deixando de ser um trigo que poderia ser utilizado para a panificação, por exemplo. O cenário colocado, portanto, combina dificuldade de mercado e de produção.
– Além da perda de produtividade, houve também uma perda de qualidade e isso vai refletir no preço final do produto pago. Então a safra de trigo está com muita dificuldade em termos financeiros. Os produtores acabaram até investindo mais, na grande maioria dos casos, para tentar evitar as doenças em decorrência da chuva. No entanto, isso não aconteceu e, para piorar a situação, o preço agora é baixo em razão das questões mercadológicas e também da própria qualidade deste grão. É um cenário bastante difícil, que fez com que os agricultores, na grande maioria dos casos, e aqueles que têm a cobertura do seguro agrícola, encaminharam o seguro para que possam ter um auxílio e poder ao menos custear as despesas da lavoura sem levar um prejuízo –, disse Schwerz.
Diante desse cenário, o presidente da Comissão de Trigo da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Hamilton Jardim, alerta para a necessidade de medidas que tranquilizem o produtor que investe na cultura. Entre elas, a manutenção dos mecanismos para garantia de preço mínimo, como os leilões públicos de trigo.
A primeira rodada teve negociação de 64% das 309,6 mil toneladas ofertadas. Uma segunda etapa, na semana passada, resultou em outras 160 mil toneladas arrematadas. O setor ainda trabalha para que o trigo tipo exportação, em geral destinado para a fabricação de ração por causa da qualidade, também possa ser incluído nos leilões.
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