Uma das safras mais desafiadoras tem se apresentado para os agricultores da região do Médio Alto Uruguai. Com os fortes impactos de mais um ano de estiagem, a produção de soja tem apresentado baixa produtividade. Além disso, nova queda abrupta nos preços trouxe insegurança e preocupação entre os produtores. Soma-se a isso elevado custo de produção, o mais alto da história. A comercialização tem sido efetuada apenas para quitar compromissos imediatos ou relacionados às despesas de colheita. Tudo isso está fazendo muitos agricultores repensarem suas estratégias.
O tempo seco e frio, predominante no período, contribuiu para a finalização do ciclo e propiciou condições ambientais favoráveis para a aceleração da colheita. Estima-se que 70% dos cultivos foram colhidos. Em termos regionais, a operação está mais adiantada a Noroeste do Estado, onde já ultrapassa 85% da área e menos a Sudeste, onde não alcança 50% das lavouras.
Na região de Frederico Westphalen, a colheita alcançou 75%; com 20% em maturação e 5% ainda em fase de enchimento de grãos. O rendimento atual situa-se próximo a 2.250 kg/ha. De acordo com dados do escritório regional da Emater/RS-Ascar, na safra 2022/23, a região de abrangência cultivou 423 mil hectares de soja. A expectativa inicial de produção era de 58,5 sacas/ha. Essa expectativa inicial é baseada na média dos últimos anos, e mais um fator tecnológico de melhoramento genético e de melhoria de perfil de manejo. No entanto, a expectativa atual é algo em torno de 38 sacas de média, ou seja, uma quebra de 37%, com uma perca de 20 sacas/ha na média da região. Para o gerente do escritório regional da Emater/RS-Ascar de Frederico Westphalen, Luciano Schwerz, a estiagem é a principal causa da redução na produtividade.
– Essa perda se dá em decorrência da estiagem, que se agravou e se intensificou bastante ao longo do mês de janeiro, seguindo até a primeira quinzena de fevereiro, o que foi a grande diferença da estiagem do ano anterior. Nesta safra as chuvas tardaram mais para retornar. Então em 2021/22 choveu mais em janeiro, o que salvou muitas lavouras. Já nesse ano a maior parte das áreas, principalmente mais em direção a Palmeira das Missões e Sarandi, tiveram um atraso nessa retomada das chuvas, o que comprometeu muitas a produtividade –, avaliou Schwerz.
As cultivares mais predicadas foram as precoces. O plantio mais cedo, no final de outubro e início de novembro, foi o que mais sofreu, porque coincidiu mais com o período de floração e enchimento de grãos com o período mais quente. As plantas semeadas mais tardiamente, em dezembro, estão tendo um perfil de produção muito acima dos demais, então isso tem equilibrado um pouco a média. Há áreas com produtividade de 10 a 12 sacas por hectare, e outras áreas chegando até 70 sacas/ha. De acordo com Schwerz, há uma heterogeneidade muito grande, uma variabilidade que dificultou muito o processo de acompanhamento.
Diante disso, a Emater montou um projeto de acompanhamento e monitoramento da safra. Os técnicos estão visitando produtores, colhendo amostras, avaliando os componentes do rendimento, das estratégias de manejo, avaliando fatores que possam explicar quais medidas podem melhorar ou trazer algum benefício, mesmo em um ano tão difícil como esse de estiagem.
Cenário na região
O cenário da região está bem dividido. De acordo com a Emater, na encosta do Rio Uruguai e nos municípios mais próximos da divisa com Santa Catarina, há uma condição de produtividade muito melhor, uma vez que as chuvas retomaram mais cedo. Já em direção a Palmeiras das Missões e Sarandi, houve um atraso na retomada das chuvas, que ocorreram em menor volume. Esta é a região que tem as maiores áreas de soja e, consequentemente, é a mais afetada.
– De maneira geral, a estiagem mais uma vez causa grandes prejuízo para nossa região, associado nesse momento com o preço, que está despencando em função da oferta Brasil. Este é um fator que nós não contávamos, pois a gente imaginava que, em função da estiagem, isso não pudesse acontecer. Porém, o restante do Brasil colheu muita soja, e o problema de logística e de armazenagem fez com que agora o produto, além da baixa produtividade, também despenca no preço, trazendo para o produtor mais um fator de risco, mais um problema, que além de menos grão, tem menos valor, com um custo mais alto da história. Muitos agricultores estão tendo dificuldades para ajustar a contabilidade e cumprir com suas obrigações –, destacou o gerente do escritório regional da Emater.
Comercialização (saca de 60 quilos)
Segundo o levantamento semanal de preços realizado pela Emater/RS-Ascar no Estado, a cotação média da soja na semana foi de R$ 135,04 representando uma redução de -4,54% em relação à cotação da semana anterior, de R$ 141,46. Em relação à safra anterior, na qual o preço médio girava em torno de R$ 180, a redução no preço supera os R$ 50.
Safra de inverno
Com o final da colheita da soja, os agricultores se preparam para iniciar a safra de inverno, com muitos produtores ainda se decidindo sobre qual caminho tomar. O custo de produção tem baixado, mas com a redução do preço do trigo, e a notícia de um fator climático com El Niño, há um cenário desafiador para os cereais de inverno.
– As atuais condições têm feito muito agricultor repensar, porque já está com soja que não gerou lucro, e não pode correr o risco de trabalhar com mais uma safra que não gere lucro ou até cause prejuízo. É um cenário para os grãos muito diferente do que a gente via nos últimos anos, que era um cenário de muita prosperidade, de bons negócios, de agricultores buscando ampliação de área, pagando arrendamento. Já hoje o agricultor está puxando o freio de mão, está tendo mais cuidado, e vai ter que usar mais ferramentas de manejo, mais conhecimento para poder reduzir o custo e fazer uma eficiência produtiva maior –, disse Schwerz.
Segundo Luciano, a Emater está à disposição para auxiliar os produtores, para que tenham uma maior taxa de assertividade nas suas escolhas, sejam elas na estratégia de manejo, seja no investimento, no custeio dessas lavouras. “Precisamos ter um cuidado com o nosso patrimônio, que é a Terra. Quando ela não está protegida, pode sofrer tanto com a estiagem, como com o excedente hídrico que provoca a erosão, que causa perdas de qualidade de solo. Então nós precisamos adotar estratégias de manejo, que visam é uma agricultura mais conservacionista, que pense na qualidade química, física e biológica do solo, e que podem gerar assim uma renda melhor, com mais eficiência, com economia e fazendo com que os agricultores tenham mais qualidade de vida”, finalizou.
Os agricultores ainda aguardam por ações do governo federal, em relação às questões da estiagem, como uma postura mais efetiva do Ministério da Fazenda sobre abatimentos e anistias para produtores impossibilitados de pagar suas dívidas devido à estiagem.
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