O Evangelho de hoje pode parecer pesado mas é uma verdadeira libertação para nós!
COLUNA DO JORNAL FOLHA DO NOROESTE
Publicado em 19/02/2023 às 23:52h
Capa O Evangelho de hoje pode parecer pesado mas é uma verdadeira libertação para nós!

Arildo,

Neste domingo, o 7.º do Tempo Comum, o Evangelho dá continuidade ao Sermão da Montanha.

Na semana passada, Jesus tinha dito: "Não vim abolir a Lei, mas levá-la à plenitude". Em seguida, começou a fazer uma série de oposições: "Ouvistes o que foi dito: Não cometerás adultério; eu, porém, vos digo…". Assim também no Evangelho de hoje.

Eu gostaria, no entanto, de me concentrar hoje num detalhe: o amor aos inimigos, assunto suficiente para toda uma meditação.

Eis o que nos diz o Evangelho: "Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo; eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem".

Santo Tomás de Aquino observa que a citação feita por Jesus não se encontra em lugar algum da Bíblia. O "amarás o teu próximo", sim, está presente no Antigo Testamento, mas em nenhum lugar se acha escrito: "Odiarás o teu inimigo".

Ora, se não existe um preceito de ódio ao inimigo, de onde Jesus o tirou?

O Doutor Angélico sustenta que Jesus está se referindo, provavelmente, ao modo como os judeus da época interpretavam o Antigo Testamento. Para eles, o amor que Deus pede ao próximo estaria restrito a uma categoria determinada de pessoas.

Mas não é isso o que se lê no Antigo Testamento.

Sim, há incontáveis textos sobre a batalha contra os que se opõem a Deus. Vejam-se, por exemplo, os chamados salmos imprecatórios, excluídos aliás da Liturgia das Horas, dada a dificuldade que muitos têm de interpretá-los em sentido cristão. Nos salmos 57, 82 e 108, o orante pede, entre outras coisas, que o inimigo seja amaldiçoado, que sua mulher fique viúva e seus filhos, órfãos; que seja destruído todo o seu patrimônio, e até a sua oração se transforme em um pecado.

Ora, é evidente que salmos desse teor não pretendem ensinar o povo eleito a odiar outros seres humanos. A interpretação verdadeira dos salmos não pode depender exclusivamente dos três acima citados, mas deve levar em conta o saltério inteiro, cuja ideia de fundo é esta: vivemos em batalha espiritual, e os nossos verdadeiros inimigos são Satanás e seus demônios. É a essa luz que devem ser lidos os salmos imprecatórios.

Obviamente, o inimigo de que fala Jesus no Evangelho de hoje não é o diabo. Os demônios, obstinados eternamente no mal, são inimigos de Deus e da Igreja e não podem ser amados.

Logo, o inimigo a quem temos de amar, segundo a doutrina do Evangelho, são os homens que nos perseguem e fazem mal.

Mas como, no fim das contas, amar o inimigo, Arildo? Evangelho é boa-nova, isto é, boa notícia; mas exigir que se ame o inimigo não parece, pelo contrário, uma coisa insuportável, um fardo até mais pesado que o da antiga Lei? Jesus não estará "pesando" a mão, impondo a todos nós algo possível unicamente a heróis?

É G. K. Chesterton quem nos dá a esse respeito uma luz bastante prática.

Em 1910, num artigo de 16 de julho para o jornal Illustrated London News, Chesterton escrevia o seguinte:

The Bible tells us to love our neighbors, and also to love our enemies, probably because they are generally the same people. — "A Bíblia nos manda amar os nossos semelhantes, e também amar os nossos inimigos, provavelmente porque eles, por via de regra, são as mesmas pessoas".

Sim, dependendo do momento do dia ou do dia da semana, quem, antes era próximo, mais tarde se torna inimigo, e vice-versa. Pois todos estamos marcados pelo pecado original, o que significa que a nossa capacidade de enxergar a verdade, apesar de íntegra, está perturbada, sobretudo por influência de emoções desordenadas. Mordidos pela serpente, todos sentimos raiva, e a raiva distorce a nossa visão das coisas.

Nada nos cega mais do que a ira, problema com que teremos de lidar sempre. Às vezes a raiva é tão grande, que até a vista se escurece, como se a luz de repente se apagasse. Sim, a raiva cega, às vezes fisicamente, mas sempre espiritualmente. Tomados por ela, deixamos de ver o outro como um semelhante e passamos a ver nele somente um inimigo. Já não vemos no outro alguém como nós; só o que vemos é um obstáculo a ser eliminado, antagonizado, destruído.

Quantas vezes já não sucedeu a mim e a você, Arildo, fazer o que não devíamos só porque o sangue nos fervia nas veias!… Mais tarde, despertos da desordem passional, caímos em nós mesmos: "Nossa! O que eu fui fazer? Não precisava ter feito isso. Perdi o controle". Precisamos nos dar conta de que não somos imaculados.

Somos, isso sim, náufragos de uma tragédia. Estamos em alto-mar num pequeno bote salva-vidas. Naufragamos no pecado original, o navio afundou. Nossa situação é precária; queremos fazer o bem, até mesmo ser santos, mas algo há sempre a nos puxar para baixo, em direção ao que não gostaríamos de fazer. Consequências e feridas do pecado original!

E o que fez o pecado original com nossos primeiros pais? Vamos nos lembrar!

Quando Deus desceu a passear no jardim à hora da brisa da tarde, encontrou Adão, escondido atrás de um arbusto porque ouvira os passos do Senhor. Essa é a primeira consequência: o homem passa a ter medo de Deus.

Ora, quem é o nosso verdadeiro inimigo? A serpente. Eva, porém, tratou-a como amiga, ao lhe dar ouvidos. De repente, Deus vem conversar com o primeiro casal, mas eles se escondem. Ali começa uma briga infernal: "Quem te disse que estás nu?" Ele responde: "A mulher que tu me deste". Adão, com uma só frase, comete duas ofensas: uma contra Deus, outra contra o próximo. Eis a distorção da alma humana ferida pelo pecado original.

Qual é a cura que Jesus nos apresenta, então?

amor aos inimigos. Veja: não se trata de um peso; pelo contrário, é um remédio, um bálsamo, uma maravilha. Por quê? Porque quem não aprende a amar os inimigos não consegue amar ninguém. Afinal de contas, em algum momento, todo o mundo a quem a gente ama — ou pelo menos deveria amar — é visto como inimigo. Tal é a força do pecado original em nós!

Você ama a Deus? É claro que sim. No entanto, quando a dificuldade lhe bate às portas, você esperneia e diz: "Onde está Deus nessa hora?" Passada a raiva, você se põe a rezar, por exemplo, um Pai-nosso; mas assim que chega ao pedido: "Seja feita a vossa vontade", parece que a picada da serpente trava a sua língua!

Nós temos medo da vontade de Deus, Arildo!

Mas o problema não está na vontade dele; está em nós, que, por medo dela, nos escondemos atrás do arbusto, assim que ouvimos os passos do Senhor. Sabemos que o primeiro mandamento diz: Amar a Deus sobre todas as coisas. E, no entanto, que medo sentimos de o amar em certas circunstâncias, especialmente nas que nos parecem mais desfavoráveis!…

O ódio carnal é, de fato, muitas vezes inevitável. Trata-se daquela desordem que surge espontânea dentro de nós. É, por exemplo, a raiva da criança de quatro anos que, frustrada, quebra um brinquedo. É uma raiva irracional, um ódio carnal, que em uma criança de quatro anos não é ainda pecado, mas mera desordem.

A razão é que uma criança tão pequena não tem advertência nem liberdade plena; em linguagem popular, ela ainda "não tem juízo". Em linguagem mais "técnica", o que nela esperneia é o que há de primitivo no cérebro. O pecado não está em sentir, mas em consentir.

Nossa irritabilidade se ativa contra as pessoas a quem mais deveríamos amar. Sentimos raiva de Deus, raiva dos amigos, raiva dos pais, raiva dos irmãos, raiva dos filhos… Nesses momentos em que a carne parece rebelar-se, Jesus nos diz: "Amai vossos inimigos". Está difícil? Então supliquemos: "Vinde, ó Deus, em meu auxílio. Socorrei-me sem demora", e peçamos ajuda ao nosso anjo da guarda e à Virgem Maria.

E por que pedir ajuda? Por que insistir em amar? Porque Jesus nos amou quando éramos seus inimigos! Eis o remédio, eis o bálsamo da nossa ferida.

O Evangelho de São Lucas nos diz que, enquanto era crucificado, o Senhor rezava pelos algozes: "Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem". Crucificado e advogado dos crucificadores! Ao invés de ser um satã, isto é, um acusador, Jesus reza por seus inimigos. Ao malfeitor que estava ao seu lado, homem de vida desregrada e pecaminosa, disse-lhe o Senhor: "Ainda hoje estarás comigo no paraíso", graças à fé e ao arrependimento que aquele ladrão manifestou.

Que maravilha é o Evangelho do amor aos inimigosQuando éramos inimigos de Deus, Ele nos amou. Jesus intercedeu por nós, que o crucificamos com nossos pecados. Ele reza por nós, dizendo: "Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem". Jesus é nosso advogado, nosso paráclito. Como diz a Primeira Carta de São João: "Se o teu coração te acusa, Deus é maior que o teu coração" (1Jo 3, 20). Que maravilha saber que Jesus nos amou quando ainda éramos seus inimigos!

Na prática, como responder ao mandamento de Jesus? Alguém nos ofendeu, mas estamos com dificuldade para lhe perdoar? Esqueçamos por um momento o ofensor e nos dirijamos a Cristo:

"Jesus, está doendo. A ofensa que sofri foi grave, mas Vós, Senhor, me perdoastes ofensas muito maiores, porque eu perdi o Céu e mereci o Inferno com o meu pecado. Por isso, Senhor, porque recebi de Vós um amor infinito, por honra e gratidão ao vosso perdão, também eu perdoarei".

Sim, a gratidão pelo perdão recebido de Deus nos leva a perdoar aos nossos inimigos. Se não perdoamos, é porque somos filhos ingratos. Mas o Senhor nos manda: "Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito". E acrescenta: "Sede misericordiosos como vosso Pai celeste é misericordioso".

É assim que podemos e devemos viver este Evangelho maravilhoso, que não é um fardo, mas um remédio, um bálsamo, um alívio.

Deus abençoe você!