Arildo,
O Evangelho deste domingo dá sequência ao Sermão da Montanha.
Jesus tinha começado pelas bem-aventuranças. Semana passada, Ele falou que somos "sal da terra" e "luz do mundo". Agora Ele nos diz como nós, cristãos, devemos cumprir os Mandamentos. A tônica do Evangelho é de contraposições. Por exemplo: "Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás. Eu porém vos digo: Todo aquele que se encoleriza com o seu irmão, será réu de juízo". Jesus está abolindo a Lei do Antigo Testamento? Não, pelo contrário. Santo Tomás de Aquino, em comentário a esta passagem, diz que Jesus está explicitando o conteúdo da Lei.
Quando, no Antigo Testamento, Deus ensinou que não devemos matar, realmente não devemos matar. Isso estava claro para todo o mundo: "Não matarás" quer dizer não matar fisicamente. Contudo, Santo Tomás de Aquino diz que Jesus está tirando consequências dessa verdade, ou seja, está explicitando que existem outras formas de matar (por exemplo, espiritualmente). Por isso Jesus diz: "Eu porém vos digo", com o que não está abolindo a Lei do Antigo Testamento, mas realizando-a plenamente.
Sim, Ele mesmo disse que não veio abolir a Lei: "Não penseis que eu vim abolir a Lei e os profetas. Não vim para os abolir, mas para lhes dar pleno cumprimento" (Mt 5, 17). O pleno cumprimento, na realidade, é uma explicação mais clara do que já estava contido no preceito. É como se o Antigo Testamento fosse uma semente ou uma pequena planta que Jesus, agora, leva à plenitude. Dessa planta começam a aparecer frutos, ainda mais saborosos. Com Jesus, a planta chega à maturidade.
É assim que se deve ler o texto, como uma série de "falsas" contraposições pelas quais Jesus explicita o que já está contido na Lei. O "Não matarás", por exemplo, compreende todas as outras maneiras de matar: encolerizando-se, desejando o mal ao próximo etc. O "Não cometerás adultério" não se refere apenas ao adultério físico, mas também ao espiritual ou em pensamento, pois "todo aquele que olhar para uma mulher com desejo de possuí-la já cometeu adultério com ela no seu coração".
Eis o que Jesus quer nos ensinar, Arildo, e a primeira coisa que se pode concluir do Evangelho de hoje é que, para ser salvo, é realmente preciso obedecer aos Mandamentos. A página do Evangelho deste domingo é incômoda para os luteranos. Por quê? Porque nela Jesus mostra claramente que sem obras não há salvação. Não é um profeta do Antigo Testamento ou um fariseu empedernido de uma sinagoga quem está pronunciando as palavras do Evangelho de hoje. É Jesus, Deus de misericórdia encarnado: "Ouvistes o que foi dito: Não matarás; eu porém vos digo: Todo aquele que se encolerizar com o seu irmão será réu de juízo e quem disser ao seu irmão ‘patife’ será condenado no tribunal".
É Jesus quem está dizendo que, se alguém, de forma consciente, matar o irmão no coração, estará em pecado mortal.
E o que é o pecado mortal? É o que mata a vida da alma. Ou seja, o que o Senhor está dizendo é: "Isso leva para o inferno".
Não é um fariseu hipócrita quem o está dizendo, é Nosso Senhor Jesus Cristo. Não é um pregador de mentalidade "medieval", "rigorosa", "jansenista", é Jesus quem está dizendo: se não cumprimos os Mandamentos, estamos perdidos.
Com relação à pureza, Jesus diz claramente: "Ouvistes o que foi dito: Não cometerás adultério; eu porém vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher com o desejo de possuí-la já cometeu adultério em seu coração. Se o teu olho direito é ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe; de fato, é melhor perder um dos teus membros do que todo o teu corpo ser jogado no inferno".
Ao contrário dos protestantes, nós católicos cremos que somos salvos, sim, pela fé; mas a "fé sem obras é morta", portanto é preciso obedecer aos Mandamentos. Ora, há dez Mandamentos. Ao pecar contra um deles, há uma maneira de pedir perdão e recomeçar: ser batizado, para quem ainda não é cristão, ou confessar-se, para quem já o é, pois todo pecado direto contra os dez Mandamentos é mortal, ou seja, traz consigo a morte eterna.
Como, então, viver os dez Mandamentos?
Primeiro, Arildo: lembremos que eles estão divididos em duas partes. A primeira tábua da Lei contém os três primeiros Mandamentos, concernentes a Deus: 1.º Amar a Deus sobre todas as coisas; 2.º Não tomar seu santo nome em vão; 3.º Guardar domingos e festas. Não vamos falar deles porque os exemplos que Jesus propõe no Evangelho dizem respeito à segunda tábua da Lei.
Ora, a segunda tábua da Lei contém os outros sete Mandamentos: 4.º Honrar pai e mãe, 5.º Não matar, 6.º Não pecar contra a castidade, 7.º Não furtar, 8.º Não levantar falso testemunho, 9.º Não desejar a mulher do próximo, 10.º Não cobiçar as coisas alheias. Destes sete, Jesus fala concretamente de dois: "Não matar" e "Não pecar contra a castidade".
São pecados contra a benevolência. Quem peca contra o 6.º e o 7.º Mandamentos não ama o próximo. Há, pois, duas formas de pecar contra a benevolência. A primeira é por ódio: "Não matar". Pode-se matar fisicamente, pode-se prejudicar externamente e pode-se matar interiormente, pelo desejo de fazer mal ao outro, seja por calúnia ou mentira, seja por roubo ou violência.
Mas existe ainda outra maneira de pecar contra a benevolência. São os pecados sexuais.
Por que ferem a benevolência? Porque pecar contra a benevolência não é só odiar o próximo, mas também usá-lo e jogá-lo fora. O pecado sexual é a tragédia de usar o outro como se fosse um objeto descartável.
Como, então, evitar esses pecados graves contra o próximo? Comecemos pelo mais complicado, que são os pecados contra a castidade.
A linguagem de Jesus é forte: "Eu porém vos digo: Quem olhar para uma mulher desejando-a no seu coração já cometeu adultério"; logo, "se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser jogado no inferno."
É uma hipérbole, Arildo, uma figura de linguagem; mas nem tanto. Há muita verdade por trás desse aparente "exagero".
Veja bem: em linguagem mais "científica", para evitar pecados sexuais não basta evitar o pecado, é necessário aprender a amar.
A principal coisa que você precisa pedir para Deus, para Nossa Senhora, pra São José, é uma consciência de que, se você não lutar para ser puro, não vai dar certo. "Negociar" com pecados sexuais é uma coisa que não dá certo.
Muitas pessoas com dificuldade para se livrar da masturbação, da pornografia, do sexo desregrado ou fora do casamento querem parar de se masturbar, de ver pornografia, de fornicar ou de cometer adultério, mas não querem ser puras. Elas preferem negociar com o pecado: "Se eu olhar para o corpo da outra pessoa, mas não me detiver numa parte desonesta, posso olhar sem pecar".
São como um alcoólatra dizendo a si mesmo: "Posso pegar o copo, cheirar a cachaça, pôr um pouquinho na boca sem engolir. Eu consigo resistir".
Sabe quando isso vai funcionar, Arildo? Nunca.
A pureza evita qualquer olhar, qualquer pensamento de imediato. Por quê? Porque o nosso principal órgão sexual é o cérebro.
Por exemplo, como será que "padre vive sem sexo"? Ora, é simples. Além de contar com a graça de Deus, com a oração e com o auxílio dos anjos, de Nossa Senhora e de São José, o padre sabe que o principal órgão sexual é o cérebro. Então, onde está a luta? Em evitar a primeiríssima alteração cerebral. O problema não está da cintura para baixo, está do pescoço para cima. O problema está no cérebro: no olhar, no sentir e no consentir.
"Ah, não sejamos tão radicais. Posso muito bem dar uma olhadinha… Afinal, ainda não estou pecando".
Não, pois com isso você ativa o cérebro, posto em em estado de caça. Ele fica elétrico, e a pessoa já não consegue se dominar. Vira um inferno. Pode até ser que você não tenha pensado em nada sexual nem em pecado de fato. Mas a caça, em todo caso, começou. Ou seja, é como se você já estivesse cheirando a cachaça, prestes a pô-la na boca…
Nós precisamos aprender a parar muito antes do pecado. Olhar para outra pessoa, desejando-a sexualmente, é pecado mortal sempre. É preciso parar antes mesmo de começar.
Trata-se de ser puro: "Se não fordes como crianças, não entrareis no Reino dos céus" (Mt 18, 3). Ora, uma criança não tem malícia sexual. Que alegria poder enxergar o mundo como o enxergam as crianças!
Um conselho bem concreto, Arildo. Quando é que um católico casado, seja homem ou mulher, pode pensar em sexo? Nunca. Sabe por quê? Porque sexo não é uma coisa em que se pensa, sexo é uma coisa que se faz com o próprio cônjuge, em circunstâncias e condições apropriadas.
Não há por que pensar em certas coisas. Alguns pensamentos devem ser rejeitados de imediato!
Veio um pensamento suicida, por exemplo. O que você vai fazer? Fugir dele. Passou pela cabeça a ideia de fazer mal a alguém. O que fazer? Fugir do pensamento. Veio a tentação de pecar contra a fé. O que fazer? Fugir do pensamento.
Há pensamentos que não deveriam ser pensados. Estão literalmente "fora de cogitação", isto é, são coisas em que não vale a pena cogitar, pensar.
Por isso, aprender a deter-se logo no início torna mais fácil a vitória contra o inimigo. "Ouvistes o que foi dito: Não cometerás adultério", mas Jesus nos diz: "Nem olhe. Pague o preço e arranque o olho", isto é, nem se atreva a lançar um olhar menos honesto. Queira antes de tudo a pureza. Não queira somente não pecar; queira um amor ardente a Deus!
Assim você estará vivendo a Lei em sua plenitude.
Deus abençoe você!
