Jesus e a Igreja não nos pedem menos que toda a nossa vida!
Coluna de Arildo Miguel Crespan
Publicado em 27/01/2023 às 14:55h
Capa Jesus e a Igreja não nos pedem menos que toda a nossa vida!

e início, Jesus não apresentou conteúdos novos. Ele não viera abolir a Lei, mas cumpri-la, nem teria sentido contradizer a pregação do Batista. Afinal, por que Deus o teria enviado antes para preparar o caminho? Sim, era necessária uma preparação. João preparou o caminho, e preparar o caminho quer dizer conversão e penitência.


Como ser de Deus sem largar os pecados mortais? Como Pedro, André, Tiago e João largaram tudo e seguiram Jesus? Por mágica? De repente? Não.
Então comecemos também nós pelo começo: fora aos pecados mortais, senão o resto é impossível. Antes do Novo, é preciso viver o Antigo Testamento.


Há quem pense que vencer os pecados graves é um objetivo de vida que se conquista aos poucos. Nada disso. Os pecados mortais se vencem todos de uma vez e para sempre. Não há negociar com o pecado. Eva pecou justamente por ter dado ouvidos à serpente. Por isso o primeiro pedido de Jesus não é: "Deixai tudo e segui-me", mas: "Fazei penitência", como em seu primeiro ano de ministério.

Aos que vinham atendendo às primeiras palavras de Cristo, João recorda o batismo no Jordão acontecido um ano antes: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo". Os discípulos passam então a seguir Jesus, embora sem a fé que teriam mais tarde. "Mestre, onde moras?", "Vinde e vede". Eles foram e ficaram com Jesus aquele dia.


O Novo Testamento finalmente começou para eles quando começaram a frequentar Jesus; sim, de forma superficial, num primeiro momento, pois o processo é gradual.


É verdade que, no Evangelho de São João, vemos reunidos em Caná da Galiléia a Virgem Maria, Nosso Senhor e alguns discípulos dele, e quando lemos "discípulos" pensamos imediatamente que eram homens de fé. Mas ainda não eram.
Santo Tomás explica que o título lhes é dado já nas bodas de Caná por antecipação, como quando se diz: "O Padre Paulo Ricardo nasceu em Recife". Ora, eu não nasci padre; nasci apenas Paulo Ricardo. Do mesmo modo, os discípulos estavam em Caná, mas ainda não eram discípulos; estavam só em companhia de Jesus, frequentando-o, sendo amigos dele.


Deixar os pecados mortais, Arildo, e aproximar-se de Jesus, sabendo que Ele é o autor da graça, aquele que batiza no Espírito Santo, ainda que a nossa fé a princípio seja pequena, são os primeiros passos. Comece a ouvir pregações, leia a vida dos santos, estude o Catecismo; comece, numa palavra, a iluminar a inteligência.


Ninguém ama o que não conhece. Antes de ouvirem: "Vinde, largai tudo e segui-me", os Apóstolos tiveram de conhecer o básico sobre Jesus.
E quantos hoje são os fiéis que buscam conhecimento?… Como irão crer na fé da Igreja, se nem sabem que fé é essa? Ninguém crê naquilo de que nunca ouviu falar. Como fazer um ato de fé, Arildo? Primeiro que tudo, frequentando Jesus. Estude o

Catecismo e conheça a doutrina da Igreja. É o primeiro passo.
Também Chesterton, em The Catholic Church and Conversion, reconhece três etapas na conversão à Igreja Católica. A primeira delas é a decisão de ser "justo" com o catolicismo: "Sejamos honestos com a Igreja. Ouçamos o que ela tem a dizer, não só o que dizem dela". Afinal, quem gosta de ser preconceituoso?…


Mas quem dá chance à Igreja experimenta em seguida certo fascínio por ela, pela coerência de sua doutrina; mas o fascínio logo se converte em medo, porque a Igreja não nos pede menos do que toda a nossa vida.
É um caminho parecido com o descrito por Santo Tomás de Aquino. Os discípulos começam por estar com Jesus e ouvi-lo, então vêem milagres e, fascinados, passam a crer; mas, uma vez nascida a fé, Jesus lhes pede que abram mão de tudo.Eis o processo que nos leva a entender que Jesus não é só interessante (primeira fase, de escuta) e digno de crédito (segunda fase, de fé), mas a razão de ser de nossas vidas (terceira fase).
O Evangelho de hoje nos relata o terceiro chamado dos Apóstolos. Primeiro, frequentar Jesus; segundo, crer em Jesus; terceiro, dar a vida inteira por Ele, porque já não se tem mais vida: na verdade, é Ele a vida de quem crê. Não, Ele não veio para resolver os seus problemas; foi você, Arildo, quem veio para se entregar a Ele.

A quem lê a vida dos santos, essa entrega parece tão extraordinária, que dá vontade de sair correndo. Mas não há como fugir. Ele é a razão de nossa vida. É preciso deixar tudo.
Deixar tudo não quer dizer necessariamente abandonar esposo, casa e trabalho. Quer dizer que nada mais faz sentido, se Ele não estiver em tudo o mais. Por Cristo, com Cristo e em Cristo. Ele é a minha razão de ser. Para Ele fui criado, por Ele devo tudo entregar. Isso, se de início dá medo e vontade de fugir, a graça o fará possível.


Sim, é um processo. Não sei em que fase você está, Arildo, se no Antigo Testamento, lutando contra o pecado, ou no Novo, dando a Jesus ao menos a chance de ser ouvido. Talvez esteja mais adiantado e creia nele de verdade. Mas pode ser que essa fé, apesar de sincera, o esteja apavorando; Jesus, até então uma descoberta fascinante, exige agora resposta: "Vai, deixa tudo e segue-me".
Coragem! A graça está operando em você uma transformação. Como todos os santos, teremos um dia a força vinda do alto, que nos fará deixar tudo e seguir a razão de nossa vida.
Deus abençoe você!