O primeiro Pint Of Science do município, promovido pela UFSM Campus Frederico Westphalen, superou as expectativas e lotou as casas em todas as noites. De 18 a 20 de maio, o público participou ativamente do evento de divulgação científica que aconteceu simultaneamente em 213 cidades do Brasil e em vários outros locais do mundo.
A equipe organizadora avaliou como positiva a realização da atividade em Frederico, afirmando que essa foi uma experiência assertiva e construtiva para todos os que estiveram presentes no Pint Of Science e que colaboraram na promoção. Ao todo, mais de cem perguntas foram trazidas pela comunidade, que além de contar com um ambiente diferente de aprendizado, pôde participar ativamente respondendo a questões trazidas pelos apresentadores.
Tradução pela IA: um sistema falho?
A primeira noite foi marcada por discussões em torno das traduções feitas por inteligência artificial e o uso de óleos essenciais para a proteção das plantas, com as falas dos professores Cristiano Bertolini e Denise Schmidt, respectivamente. Trazendo exemplos reais diretamente da China, Bertolini explicou que os maiores problemas de tradução estão relacionados ao contexto cultural em que os termos estão inseridos, reforçando que o Processamento de Linguagem Natural deve ser visto como ferramenta de apoio e que os erros de tradução podem se tornar problema perigoso em áreas como direito e saúde, por exemplo.
Plantas para futuro promissor
Já a professora Denise falou da capacidade multifacetada de aplicação dos óleos essenciais, destacando o potencial de um mercado promissor para manejo fitossanitário, devido às propriedades antifúngicas, antibacterianas, inseticidas e repelentes. Lembrando da inteligência das plantas, tema amplamente pesquisado internacionalmente, a docente do curso de Agronomia da UFSM/FW falou da capacidade das plantas produzirem aromas, por exemplo, como mecanismos de defesa, com potencial bioativo para utilização na proteção vegetal.
Manipulação da realidade
No dia seguinte foi a vez de discutir notícias falsas, o uso de drones e IA para mapeamento no campo e prender a respiração na expectativa da próxima pandemia. Mirian Redin de Quadros abordou como a desinformação, isto é, a criação de conteúdos falsos para manipular a realidade, se tornou um risco para a sociedade, apontando como o apelo emocional, o viés de confirmação e a noção de pertencimento faz com que ainda se acredite em fake news. Ao final, trouxe recomendações para que o público não caia nessas armadilhas.
Mapeamento tecnológico otimiza produção
Na sequência, Emanuel Araújo da Silva demonstrou como o uso de drones e Inteligência Artificial podem servir para otimizar os cuidados com as plantações. No experimento realizado no mapeamento de um olival, a tecnologia auxiliou na geração de mapas detalhados de cada planta que orientam poda, irrigação e adubação de forma mais precisa.
Pandemia à vista?
Com um público atento, Letícia Trevisan Gressler fez o público prender a respiração enquanto falava de uma possível nova pandemia. Em meio à notícia da descoberta de uma superbactéria resistente a 14 antibióticos na água de Porto Alegre, a pesquisadora explorou como o uso indiscriminado de antimicrobianos é um problema que extrapola as paredes dos hospitais, uma vez que as bactérias resistentes já circulam entre pessoas, animais e ecossistemas. A estimativa da OMS, segundo explica, é que em 2050 devemos chegar a 10 milhões de mortes por ano devido a superbactérias e que, para prevenir a próxima pandemia, precisamos adotar o conceito de One Health.
No ar, no mar, no solo, no cume
A última noite contou com a presença de jovens pesquisadoras, que trataram de microplásticos, sobre o papel do jornalismo e a possibilidade de usarmos moléculas como máquinas. Luma Dal’Astra Zanella, que pesquisa os microplásticos em seu mestrado, explicou que eles estão em todos os lugares do planeta, dos mais altos aos mais profundos, trazendo o exemplo do Monte Everest, onde os cientistas detectaram microplásticos a 8.440 metros de altitude, próximo ao cume, e na Fossa das Marianas, o ponto mais profundo dos oceanos. Sua pesquisa, salientou, investiga como esses materiais interagem com compostos como o Naftaleno e quais fatores influenciam para a dispersão de poluentes no ambiente.
Papel do jornalismo
Depois a estudante de jornalismo, Júlia Negrello Decarli, refletiu como as histórias de vida dos profissionais da comunicação impactam nas informações que chegam até nós. Sua apresentação, baseada na pesquisa que estudou os profissionais que cobriram a maior tragédia ambiental da história do Rio Grande do Sul, em 2024, trouxe reflexões sobre o papel do jornalismo em situações socioambientais críticas.
Universo invisível
Suzan Kamine Kunz revelou um universo invisível a olho nu. Segundo explicou, as máquinas moleculares poderão funcionar como um código direcionado daqui há alguns anos. Ela ainda apresentou possibilidades para o futuro da medicina, da nanotecnologia e dos materiais inteligentes. Suzan é membro de um dos poucos grupos de pesquisa no mundo que detêm a tecnologia, o Núcleo de Química de Heterociclos (NUQUIMHE), que junto com outro do México, estão na América Latina.
Ciência para superar os desafios do amanhã
Com o sucesso absoluto e a intensa participação da comunidade, o primeiro Pint of Science de Frederico Westphalen cumpre seu papel fundamental: democratizar o acesso ao conhecimento acadêmico. Ao tirar os pesquisadores dos laboratórios e levá-los para perto das pessoas, a UFSM/FW não apenas consolida o município na rota global da divulgação científica, mas também planta a semente para que o festival se torne parte fixa do calendário da região nos próximos anos.
O Pint of Science em Frederico Westphalen provou que a ciência se faz viva quando compartilhada. O evento encerra sua primeira edição deixando claro que o diálogo entre a universidade e a sociedade é o caminho mais sólido para decifrar os desafios do amanhã.
Publicado por
